Imprensa A guerra, a indústria e as nossas vidas

Artigos de Opinião | 03-05-2022 in Dinheiro Vivo

Imaginemos um casal normal, não muito diferente de uma qualquer família que conhecemos. Podemos chamar-lhes Luís e Isabel. Estão na meia-idade, com dois filhos já adultos e a começarem os seus próprios trajetos pessoais e profissionais. Têm um pequeno carro, que partilham nas deslocações diárias entre a casa e o trabalho. Nunca tiveram uma vida desafogada, mas com a saída dos filhos de casa passou a sobrar-lhes tempo e alguma margem financeira para se dedicarem mais um ao outro e se permitirem pequenos luxos, como uma ida ao cinema e a um restaurante.

Ultimamente a vida do Luís e da Isabel mudou. Com a gasolina a dois euros o litro, decidiram-se a deixar o carro na garagem e a apanhar o autocarro que, no entanto, lhes consome mais tempo e vai sempre cheio como um ovo. As conversas matinais ao pequeno-almoço tornaram-se mais curtas, e dedicadas em grande parte à discussão de preocupações. A guerra na Ucrânia, depois da pandemia, e a incerteza que veio lançar. Onde é que a luta contra as alterações climáticas fica no meio desta história? A segurança profissional dos filhos. O preço da eletricidade, o preço do pão, o peixe que não se consegue comprar, o dinheiro que já não parece chegar para nada.

Sentem-se impotentes e, à falta de alvo mais o óbvio, dirigem a sua raiva interior para aqueles que produzem todos aqueles bens e serviços que se habituaram a considerar, com razão, direitos inalienáveis. Não apenas os combustíveis e a eletricidade, mas também os produtos alimentares, a cultura e o lazer, as comunicações, os medicamentos como o comprimido que mantém controlada a hipertensão do Luís.

Do outro lado da barricada, porém, não está o inimigo. Existem algumas grandes empresas, sim, umas com uma conduta em relação aos consumidores melhores do que outras. Mas o que abunda é gente com pequenos e médios negócios e preocupações muito parecidas com a deste casal. Algumas, quem sabe, até se chamam "Luís" ou "Isabel". Pessoas inquietas com o preço da energia e a escassez das matérias-primas. Com a instabilidade das cadeias de abastecimento. Com a quebra na procura pelos consumidores, e as consequências que isso terá na preservação dos seus negócios e dos postos de trabalho por estes criados.

 

As chamadas indústrias do dia-a-dia, que asseguram os bens e serviços que nos habituámos a considerar parte integrante e natural das nossas vidas, estão entre as mais afetadas pelas consequências da atual crise energética e de segurança. E também entre aquelas para as quais mais escasseiam soluções. Talvez porque, por não a associarmos a um rosto, um nome, uma pessoa, não estejam tão presentes nas nossas preocupações imediatas.

E, como estas, existem diversos outros setores da indústria que querem corresponder ao que lhes é pedido, nomeadamente em termos de investimentos nas transições verde e digital, que não querem defraudar a confiança dos seus clientes, mas que nesta altura se encontram, muitos deles, esmagados pelos acontecimentos, pela falta de apoios concretos, e por uma carga regulatória e burocrática que nunca ajudou, mesmo nos melhores tempos, mas que atualmente se começa a tornar insustentável.

No final de contas, a razão para a existência de todos estes setores de atividade é proporcionar a pessoas como o Luís e a Isabel as condições que merecem. E é precisamente por isso que a União Europeia, bem como os Estados-membros, individualmente, têm de fazer tudo para os ajudar. Tomando medidas, algumas provisórias e outras permanentes e estruturais, para tornar as empresas e a indústria europeia mais competitivas e resilientes. Exigindo-lhes em troca inovação, mais valorização e qualificação dos recursos humanos, respeito pelos consumidores e compromisso com as grandes metas, desde logo o combate às alterações climáticas. Mas reconhecendo também o papel decisivo que tiveram na construção das vidas que hoje temos.

Maria da Graça Carvalho, eurodeputada do PSD

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