Imprensa O caminho português para a sustentabilidade ambiental

Artigos de Opinião | 07-06-2023 in Diário de Notícias

Nesta segunda-feira, Dia Mundial do Meio Ambiente, o jornal Público incluía um interessante artigo no qual se propunha fazer uma "radiografia ambiental" do país. As conclusões, mais do que um mero retrato dos aspetos onde estamos melhor e pior, acabam por ser um verdadeiro guião do que tem de ser feito ao longo dos próximos anos e décadas. Não só para que Portugal cumpra os objetivos da neutralidade carbónica, mas também para que evolua em termos de crescimento económico e qualidade de vida dos seus cidadãos.

Começando pelas emissões de gases com efeito de estufa, salta desde logo à vista o desempenho fraquíssimo do setor dos transportes que, no nosso país, é responsável por 28% das emissões, por comparação com uma média de 23% na UE27. Este é um reflexo direto do desinvestimento português nos transportes públicos, nomeadamente na ferrovia, tanto nas áreas metropolitanas como nas ligações a diferentes pontos do país, em especial ao Interior. A consequência é o maior recurso a transportes particulares o que, associado ao envelhecimento do nosso parque automóvel, só pode ter como consequência um elevado nível de emissões.

Por oposição, as indústrias da energia, nas quais o nosso país tem feito um investimento muito significativo ao nível das renováveis, representam 15% das emissões o que, continuando a significar que são o segundo setor com maior peso nas emissões, representa um desempenho incomparavelmente superior ao da média da UE, em que a produção de energia representa quase um quarto (24%) de todas as emissões.

Já a Agricultura e os Processos Industriais representam cada um 13% das emissões, acima da média europeia, o que pode ser considerado surpreendente tendo em conta a dimensão relativamente modesta que estes setores têm no nosso país. Considerando que, em ambos os casos, existe uma clara margem para crescer em termos de produção, há um longo trabalho a fazer por parte dos decisores políticos nacionais para ajudarem estes setores a fazerem a transição ambiental com sucesso. Os meios existem. As linhas de financiamento europeias estão disponíveis. E é altura de o governo colocar as ações ao nível da retórica que tem tido nestes campos.

Uma nota ainda para o peso de 9% do setor dos resíduos, o triplo da média da UE. De acordo com a reportagem, até estamos em linha com a média europeia ao nível da produção de resíduos por habitante, mas em tendência de crescimento, contrariando a evolução que se faz sentir em muitos outros países. Pior: continuamos a reciclar pouco e a recorrer a aterros numa percentagem bastante superior à da UE.

Num quadro mais geral, confirmamos que o país tem progredido mais rapidamente do que a União Europeia ao nível da redução das emissões, chegando a um decréscimo de 35% face a 2005, enquanto a UE não passou dos 24%. Mas também confirmamos que este desempenho globalmente positivo esconde diferentes realidades.

Como disse, o país deve aspirar a produzir mais, desde a agricultura ao setor industrial, porque crescer nesses setores significa criar mais riqueza e empregos para o país. Mas o desafio passa por alcançar esse crescimento de uma forma sustentável. Para isso é preciso investir no chamado triângulo do conhecimento - Educação, Investigação Científica e Inovação - e apoiar estes setores de uma forma decidida.

Regressando à ligação entre ambiente e desenvolvimento económico e social, um dos problemas do nosso país, em especial dos governos socialistas, tem sido a tendência para afunilar recursos em megaprojetos de eleição, que rendem soundbites e por vezes alguns votos, mas vão deixando por resolver questões de base, estruturais, que são bloqueios ao crescimento.

A realidade de Portugal, nas suas virtudes e defeitos, salta à vista nos números do seu desempenho ambiental. Agora é preciso haver vontade política para atuar onde é preciso.

 

Pode ler o artigo no site do Diário de Notícias.

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