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Perfil do novo Ministro das Finanças (Sábado)

2011-06-22

PERFIL. VÍTOR GASPAR É O NOVO MINISTRO DAS FINANÇAS  
 
...e o tenista ocasional  
 
Não está habituado ao jogo político, mas sabe-se que detesta perder. No parlamento, terá como adversário o seu primo direito Francisco Louçã - um jogador duro e implacável  
 
É um jogador defensivo: pratica ténis mas quando vai à rede, diz quem jogou muito com ele, não é para atacar: é mesmo só para cumprimentar o adversário no fim. Dizer que joga à defesa pode ser enganador: Vítor Gaspar tem apesar disso um jogo agressivo e é um batalhador. Nunca desiste de um ponto, leva a luta até ao limite. "E nunca, mas nunca, faz batota", assegura João Marques de Almeida, seu parceiro de ténis nos três anos em que passou por Bruxelas. "Com ele uma bola fora é fora, dentro é dentro e eu já joguei com muita gente, nem sempre é assim", assegura este conselheiro de Durão Barroso em Bruxelas. Vítor "tem uma boa esquerda cortada" e detesta perder. Se a forma como joga tiver tradução na forma como exercerá o cargo de ministro das Finanças, serlhe-á útil não desistir de nenhum aspecto e a troika gostará de saber que não faz batota.  
 
Vítor Gaspar sempre fez desporto, mas quem pensar que isso significa que tem muito tempo livre está enganado. O novo ministro é workaholic. Precisamente no mesmo período da sua vida em que jogava ténis ao fim da tarde com Marques de Almeida em Bruxelas, também chegava ao último andar do edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia, pelas 5h da manhã, para começar a trabalhar. Praticamente morava lá, já que almoçava na cantina e só saía ao fim da tarde. A sua secretária não costumava ser das mais arrumadas, mas quem trabalhou com ele garante que a cabeça sim: sabia sempre o que tinha a fazer e não falhava uma tarefa.  
 
A ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho integra o Bureau de Conselheiros de Política Europeia órgão consultivo do presidente da Comissão, José Manuel Durão Barroso, que Gaspar chefiou entre Janeiro de 2007 e Fevereiro de 2010 - e diz que, além de "muitíssimo trabalhador", era "compenetrado, rigoroso, organizado e objectivo". Ou seja, nunca foi adepto de perder "tempo em conversas sem objectivo", sobre futilidades, com os colegas de trabalho. "Profundamente exigente com as pessoas com quem trabalhava, inclusive com aparte administrativa", tinha poucas hesitações: "Um sim era um sim, um não era mesmo um não". Mas era respeitado: abaixo e acima - Durão gostou do conselheiro com quem tinha briefings pelo menos uma vez por semana. Na despedida de Gaspar, há pouco mais de um ano, num restaurante em Bruxelas, o presidente da Comissão apareceu, discursou e fez-lhe rasgados elogios.  
 
Vítor Louçã Rabaça Gaspar, primo direito de Francisco Louçã por parte da mãe, é economista como o primo, mas nessa matéria as semelhanças acabam aí. Gaspar é um liberal, defensor de limites à dívida e de controlo orçamental estrito. Marques de Almeida refere que ele "acredita genuinamente em Maastricht e nos critérios de convergência". É natural, afinal, negociou-os. Em 2007, disse aos alunos da Universidade de Verão do PSD, em que foi um dos oradores: "Julgo que os critérios de convergência são adequados e uma vez descoberta uma regra adequada é absolutamente crucial mantê-la." Foi também aí que fez aos alunos um pedido importado da experiência europeia: "Eu de facto ficava imensamente grato se me tratassem por Vítor, senão, enfim, tenho que começar a distribuir doutores, doutoras, senhores, senhoras, e talvez possamos simplificar a nossa vida se não fizermos tal coisa. Mas tratem-me mesmo por Vítor senão isto não converge."  
 
VÍTOR NASCEU E ESTUDOU em Lisboa - a família é de Manteigas, mas o casal Louçã- -Gaspar mudou-se cedo para Lisboa - e mesmo como estudante já era como hoje o descrevem. Na Universidade Católica, onde se formou em Economia em 1982, era um aluno "sisudo, nada comunicador, muito discreto, mas cumpridor, e excelente aluno", recorda uma antiga colega de curso. Nada de jantaradas, borgas, "nem de galhofa". Foi na faculdade que conheceu e começou a namorar com a mulher, Sílvia Luz, quadro do Banco de Portugal.  
 
Mas não era tímido nas aulas ou no contacto com os professores. Nem posteriormente no mestrado, na Universidade Nova. João César das Neves, que foi seu colega, conta que ele "tinha sempre muitas perguntas para os professores nas aulas, porque já tinha lido tudo em casa e levava tudo preparado". Teve aproximações à política: trabalhou em várias funções no Ministério das Finanças, durante os governos de Cavaco Silva, primeiro com Braga de Macedo, tendo sido o representante do governo português nas negociações de Maastricht, e depois com Miguel Beleza. E em todos os lugares por onde passou tornou-se sempre alguém da confiança daqueles a quem reportava. "Era o meu assessor mais próximo, fazia de tudo, preparar discursos e reuniões importantes. É brilhante, agradável, faz depressa e bem, o que nas reuniões internacionais importantes dá imenso jeito," diz Miguel Beleza que costumava levá-lo sempre que ia para fora. "E aí fazíamos sempre jogging de manhã." Quase sempre muito cedo. Em Basileia, encontraram uma banheira no passeio: eram 6h da manhã, a recolha do lixo ainda não tinha passado. César das Neves, que também o acompanhou no gabinete de Beleza, achava, já então, que ele tinha jeito para a política. "Uma vez fartei-me de gozar com ele porque deu uma entrevista a um jornal, sobre a nossa entrada no Sistema Monetário Europeu, e conseguiu a proeza de falar imenso sem dizer nada, o que é um talento iminentemente político. E ele reconheceu que não tinha dito nada", ri-se.  
 
De resto, alguns colaboradores apontam-lhe a enorme calma: "Quando quer é impenetrável." E nunca levanta a voz. Gaspar tem um extenso currículo europeu: foi director do gabinete de estudos do BCE (Banco Central Europeu), em Frankfurt e transitou para a Comissão Europeia, onde esteve até 2010. A experiência externa deixou-lhe uma grande rede de contactos internacionais. Na CE, criou um programa de economistas visitantes, levando vários especialistas internacionais a Bruxelas, e tem consciência do peso político relativo de cada jogador no xadrez europeu. No quadro da transição para a União Monetária, usou um argumento político para contradizer César das Neves numa questão técnica: "Olha que os franceses não deixam." O amigo contrapôs: "Os franceses que se lixem!" Mas a verdade é que os franceses não deixavam: "Eu sou mais técnico, mas ele mede bem esses aspectos."  
 
A mulher e as filhas ficaram em Portugal durante o período de emigração europeia. Gaspar regressou há um ano e era, até terça-feira, dia 21, consultor da administração do Banco de Portugal e professor catedrático convidado na Católica e no ISEG. Como professor, gosta de ter a certeza de que o estão a ouvir, usando as fórmulas: "OK? Certo? Estão comigo?"