Imprensa

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Óscars da Europa (FOCUS)

2011-11-23

Marisa Matias, Regina Bastos e Maria da Graça Carvalho foram nomeadas para o prémio de Eurodeputado do Ano. A Cerimónia de entrega das distinções decorre dia 29 em Bruxelas. Ver reportagem aqui.

"E o prémio vai para..." No próximo dia 29 vai ter lugar a cerimónia de entrega dos prémios de Eurodeputado do Ano. O evento quase se assemelha aos Oscars: reunidos na sala principal do clássico e luxuoso hotel Stanhope, uma unidade de cinco estrelas próxima do Parlamento Europeu, os nomeados aguardarão ansiosamente a oportunidade de serem chamados ao palco, receberem o troféu e discursarem perante os seus pares. São 48 nomeados, separados por 16 categorias. E este ano existem três eurodeputadas portuguesas nomeadas: Marisa Matias, 35 anos, do Bloco de Esquerda, na área da Saúde; Maria da Graça Carvalho, 56 anos (Investigação Científica e Inovação), e Regina Bastos, 51 anos, também do PSD (Emprego e Assuntos Sociais).  
 
Querem seguir as pisadas de Ana Gomes e Edite Estrela, galardoadas em anos anteriores. A Focus falou com as nomeadas portuguesas para este prémio, organizado pelo sétimo ano consecutivo pela The Parliament Magazine, em que são os 736 eurodeputados a votar. Tal como nos Oscars, o discurso é cauteloso: não esperam vencer, os outros nomeados é que merecem, não têm nada preparado em caso de vitória.  
 
Marisa Matias soube que estava nomeada quando, uma semana depois do anúncio, se cruzou com um colega nos corredores do Parlamento Europeu e este lhe disse que já tinha votado nela. "Para quê?", retorquiu, ingenuamente.  
 
Este ano foi um dos mais produtivos para a eurodeputada eleita pelo Bloco de Esquerda: foi a relatora proposta para controlo e fiscalização de medicamentos falsificados, aprovada em fevereiro, e viu aprovado o relatório sobre a doença de Alzheimer e outras demências, em janeiro. Para a diretiva, foram dois anos de trabalho; para o relatório, seis meses. Um trabalho invisível, feito "atrás das cortinas", que acaba por ser recompensador. "É muito raro e difícil termos a possibilidade de fazermos legislação para 500 milhões de pessoas", conta.  
 
Licenciada em Sociologia, mas especializada em Saúde Pública, Marisa Matias, eleita em 2009, faz incidir o seu trabalho na comissão de Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar - algo que viu este ano ter resultados concretos. "É recompensador quando conseguimos chegar ao fim com um projeto aprovado. Não entrarei da mesma forma numa farmácia ou num hospital quando souber que estou a comprar um medicamento verdadeiro. Sinto que houve algum contributo." Mas nem por isso pensa que poderá vencer o prémio.  
 
Os votos que recebeu para as nomeações vieram de associações de pacientes e de profissionais da saúde. Já os votos, vêm dos eurodeputados. Sendo o grupo da Esquerda Unitária Europeia, a que o Bloco pertence, um dos mais pequenos, Marisa vê com dificuldade uma vitória. "A tendência é votar nos eurodeputados dos grandes grupos", explica. E diz que se o prémio fosse para a nomeada irlandesa, Nessa Childers, do Partido Socialista Europeu (PSE), que também trabalha na área da saúde mental, seria bem entregue. O outro concorrente é a inglesa Liz Lynne, que se dedica à área do cancro. Mesmo que não vença, não será por isso que o empenho será menor do que nos dois anos anteriores. "A motivação não é essa. É tentar fazer o melhor que sabemos em nome das pessoas que representamos e não em nome dos prémios." Contudo, depois de tantas mensagens que recebeu de colegas e amigos, é difícil não sentir uma certa satisfação. "Não vou estar com falsas modéstias. Uma pessoa sente-se reconhecida por estar nomeada."  
 
O facto de ter duas colegas portuguesas nomeadas não a surpreendeu, em especial Maria da Graça Carvalho, com quem trabalha proximamente. Marisa Matias diz que existe entendimento dos deputados portugueses, da esquerda à direita, em matérias sectoriais como a Política Agrícola Comum (PAC) ou as pescas. Nas questões económicas, a situação é diferente. "A ideologia conta mais. Tentamos entender- -nos para defender o interesse nacional, mas há domínios em que não há articulação possível." Regina Bastos recebeu a informação do gabinete e pouco tempo depois recebeu a confirmação por mail: estava nomeada para os prémios de Eurodeputada do Ano. "Foi uma surpresa completa", conta à Focus. O trabalho que desempenhou na elaboração do relatório Agenda para as Novas Competências e Empregos, aprovado no plenário de Estrasburgo, em outubro, terá sido o fator decisivo para a nomeação. Objetivo: traçar, para os próximos 10 anos, quais serão as necessidades da UE em termos de áreas de emprego, qualificação e formação. "A resposta está na área dos serviços e da economia verde", diz a eurodeputada.  
 
A jurista, natural de Estarreja, durante anos deputada à Assembleia da República e dirigente nacional do PSD, lembra a elevada taxa de desemprego, especialmente entre os jovens, para reafirmar que a adequação das competências às necessidades dos empregadores é essencial. Aliás, além da crise, esse poderá ser um dos entraves à criação de emprego. "Há essa realidade, a falta de ligação entre a necessidade do mundo laboral e a formação universitária." Por isso, o relatório vai funcionar de duas formas. "Temos de dizer às pessoas que existe necessidade de mão-de-obra em determinados sectores e às universidades que precisamos de formação nas mesmas áreas", explica.  
 
A parlamentar também tem trabalhado nas áreas da legislação laboral, sobre o conceito de "flexissegurança" - que alia vínculos de trabalho flexíveis com proteção social no desemprego. Nos tempos mais recentes, com a crise económica, o sentido das reformas parece dar mais atenção à questão da flexibilidade. Regina Bastos diz que esta é "indispensável", mas a segunda dimensão do conceito não pode ser esquecida. "Os contratos não podem ser rígidos, é preciso que as pessoas entrem e saiam do mercado de trabalho com maior facilidade. Mas não pode haver flexibilidade sem segurança." Também defende a adaptabilidade a cada mercado, não podendo ser aplicada de igual forma no Norte, que tem baixas taxas de desemprego, como no Sul.  
 
Ter três eurodeputadas portuguesas nomeadas para o prémio "é um orgulho para um país que não é dos mais relevantes em termos de dimensão, mas que tem demonstrado empenho", considera a eurodeputada. Diz que "o interesse nacional prevalece sobre as agendas político-partidárias". E mais: a distinção tripartida "é um sinal para aqueles que têm dúvidas" sobre a validade do trabalho que se realiza no Parlamento Europeu. Regina Bastos concorre contra o irlandês Gay Mitchell, ex-ministro do seu país para os Assuntos Europeus e ex-mayor de Dublin, e a francesa Pervenche Berès (PSE), declarada uma das 100 pessoas mais influentes nas finanças europeias, depois de ter sido presidente da Comissão Parlamentar de Economia e Assuntos Monetários. A concorrência "tem muito valor" e talvez por isso diz que não ganhar. Sem planos para celebrar uma eventual vitória, diz: "O reconhecimento da nomeação basta- -me."  
 
Maria da Graça Carvalho está há apenas dois anos como deputada no Parlamento Europeu e sabe que estas nomeações, em que votam os grupos de interesse na área da pesquisa e inovação, também são influenciadas pelo tempo que se tem de contacto com o meio e com os intervenientes. Ficou surpreendida quando viu o mail e lá estava a indicação que tinha sido uma das três designadas. Mais surpresa ficou quando o presidente da comissão que integra, a da Indústria, Pesquisa e Desenvolvimento, Herbert Reul, enviou uma mensagem a todos os outros membros a pedir que votassem nela. É que o alemão também está nomeado na mesma categoria. "Foi um reconhecimento tão bonito como a nomeação."  
 
A portuguesa foi nomeada pelos seus esforços no relatório Simplificação das Regras de Participação nos Programas de Ciência e Inovação, que pretende facilitar o acesso aos fundos europeus do programa-quadro de ciência e inovação, algo especialmente relevante para Portugal, não só por causa da crise, que restringe os orçamentos para estas áreas, como por causa da dimensão das suas instituições. "Não têm departamentos dedicados à burocracia e a participação é muito complexa." Vai daí, Maria da Graça Carvalho foi a universidades, fez workshops, reuniu com investigadores e fez várias sugestões. "Foi uma das razões para a nomeação." Foi proposto diminuir as questões administrativas, acelerar prazos entre a candidatura e o pagamento, entre outros aspectos. Além desta questão, Maria da Graça Carvalho também teve um outro importante papel. Foi pela sua iniciativa que o Parlamento Europeu propôs a duplicação das verbas dedicadas ao próximo programa-quadro, de 50 mil para 100 mil milhões de euros. Com a sugestão da Comissão Europeia em aumentar para 80 mil milhões a negociação e definição de um significativo aumento do montante está bem encaminhada. Até a Alemanha, que quer impor restrições orçamentais globais, está a favor do aumento de verbas para esta área.  
 
A experiência adquirida ao longo dos anos foi valiosa para que a eurodeputada do PSD tivesse estes resultados. Com uma longa carreira como professora universitária e investigadora, passou também pelo Governo de Durão Barroso, como ministra da Ciência e Ensino Superior, e ainda pela Comissão Europeia, também a convite do português. "Conheci os problemas do dia-a-dia como investigadora, negociei no conselho europeu como ministra, também estive na comissão. Tinha conhecimento das várias vertentes", explica. Será que prefere algum deles? "Não se pode comparar. A comissão tem o poder de iniciativa, o parlamento negoceia..."  
 
Maria da Graça Carvalho sempre trabalhou em equipa, por isso diz que "o reconhecimento é maior por se tratar de um trabalho solitário". Diz que a nomeação de três eurodeputadas portuguesas tem significado. "Os eurodeputados portugueses trabalham muito. É uma pena que não seja essa a ideia do público em geral." A docente diz que existe solidariedade entre os deputados portugueses e destaca aqueles com quem trabalha mais proximamente: Marisa Matias, Correia de Campos (PS) e Ilda Figueiredo (PCP). "Há uma concordância em apoiar a investigação científica, a saúde."  
 
A portuguesa concorre com a holandesa Judith Merkies (PSE), que abrange áreas de trabalho que vão da indústria automóvel ao desenvolvimento sustentável. E não destoa das colegas quando diz que não espera ganhar nem tem discurso preparado. Mesmo apesar de ter recebido apoio de deputados de vários grupos parlamentares, especialmente de países com forte tradição de investigação científica, como o Reino Unido. "Já fiquei contente com a nomeação."