Imprensa

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O homem que tem o país nas mãos (Visão)

2011-06-23

O vice em estado de graça  
 
Leu O Capital de Karl Marx, aos 17 anos. Aos 50, admira Milton Friedman. É um académico que percebe bastante de política. E um independente que sempre navegou nas águas do PSD. Ninguém lhe regateia elogios  
 
POR João Paulo Vieira E PAULO PENA*  
 
A revolução apanhou-o com 13 anos, cedo de mais para o arrebatar, tarde de mais para o deixar indiferente. Na Avenida de Roma, em Lisboa, onde cresceu, perdeu mais tempo a jogar à bola do que a colar cartazes ou a organizar manifs.  
 
Os pais eram oposicionistas ao Regime, mas não tinham qualquer tipo de atividade política. Vítor Rabaça Gaspar, o pai, é economista. Laura Louçã, amãe,é jurista. E, ao contrário dos primos maternos, vizinhos próximos, Vítor não se empenhará muito nas discussões do PREC. Isso ficará para Francisco Louçã, o primo, sete anos mais velho, ou para os seus irmãos. O que não significa que Vítor não queira saber a razão de tanto alvoroço político. Pelo contrário, escolhe a via mais difícil para se familiarizar com o debate.  
 
Aos 17 anos, quando se prepara para entrar no curso de Economia da Universidade Católica, pega nos quatro tomos de O Capital, de Karl Marx, e lê-os. Poucos serão os comunistas que se podem gabar do feito. E Vítor nunca chegou a ser um comunista. Apenas curioso, qb.  
 
Mas a curiosidade não esgota o feito. É preciso uma boa dose daquelas qualidades que agora todos os ex-professores, ex-colegas e ex-alunos lhe gabam, enquanto ministro das Finanças, e número dois do Governo liderado por Passos Coelho. «Determinação», «competência», «estudo», «dedicação».  
 
«Era muito estudioso, e foi dos melhores alunos que já vi na vida» (Manuel Pinho); «Pode confiar-se naquilo que ele diz. Se ele diz que faz, é porque vai fazer» (João Carlos Espada); «É uma pessoa brilhante e isso vê-se de imediato. Dos mais brilhantes que tenho conhecido» (Miguel Beleza); «Deve ser dos ministros das Finanças dos últimos anos com maior preparação técnica» (Pedro Pita Barros); «Se ele não conseguir ser um bom ministro das Finanças, nenhum outro conseguirá» (António Nogueira Leite); «Ele quer saber dos assuntos com bastante detalhe, mesmo dos assuntos do dia a dia» (Fátima Barros).  
 
O INÍCIO: DOMINAR OS GABINETES  
 
Por onde andava, então, Vítor Gaspar, o ministro quase desconhecido, que tanta surpresa parece ter causado? A resposta é óbvia: estava onde as decisões se tomam. Lá mesmo, no centro. Discreto, como gosta de ser. E precoce, como as suas leituras evidenciam. Conclui a licenciatura na Católica, impressionando professores e colegas. «É extremamente discreto, desde os tempos em que foi meu aluno», nota Manuel Pinho, ex-ministro da Economia, do PS. António Nogueira Leite, que foi seu «caloiro», recorda os jogos de futebol em que ambos participavam, nas traseiras do Centro Roma: «Foi o melhor aluno do ano dele.  
 
No doutoramento, passa com nota máxima - louvor e distinção. E começa a viver a política, nos gabinetes. Primeiro, no do ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, na primeira maioria absoluta de Cavaco Silva. «Deixou-me muito bem impressionado. Era sério, profundo, muito analítico e fundamentado», avalia o ex-governante.  
 
Quando Cadilhe sai do Governo, em 1990, Vítor Gaspar já dirige, com 28 anos, o Gabinete de Estudos do Ministério das Finanças e integra, como «alternante», ou seja substituto, o restrito Comité Monetário. O novo ministro é Miguel Beleza. E Portugal caminha a passos largos para a integração monetária europeia.  
 
O jovem economista Vítor Gaspar impõe-se. «Escolhi-o porque entre as pessoas disponíveis pareceu-me uma opção óbvia. Rapidamente me apercebi das suas capacidades técnicas, para além de ser uma pessoa excelente para trabalhar, por ser muito simpático», recorda Miguel Beleza.  
 
Com o ministro, Vítor Gaspar corre mundo, de reunião em reunião. «Ele, normalmente, vinha comigo, quando havia uma reunião de alguma importância. Ajudava-me a escrever discursos, a preparar posições, tinha uma grande capacidade de trabalho e era muito versátil.  
 
Versátil ao ponto de acompanhar Beleza no jogging. «Corríamos 45 minutos a uma hora e o ritmo era bastante equilibrado. Talvez ele quisesse ser simpático e não ir mais depressa.» Assim, aproveitou para conhecer cidades como Washington e Basileia, nos tempos em que não havia televisões a registar a corrida...  
 
Aos 31 anos, depois de quatro anos de ministério e três ministros diferentes, Vítor Gaspar não abranda o ritmo. O sucessor de Beleza, Braga de Macedo, nomeia-o seu representante na Conferência Intergovernamental que negociou o Tratado de Maastricht, em 1992.  
 
A ESCALADA: MAASTRICHT E O EURO  
 
Sempre discreto, mas não ao ponto de passar despercebido junto do primeiroministro, Cavaco Silva. Só isso explica a sua permanência, e ascensão, num período tão conturbado, no Ministério das Finanças.  
 
Ao contrário de Cavaco, Gaspar não é um fã de John Maynard Keynes, nem da sua política de intervenção estatal. Gaspar admira, pelo contrário, o liberalismo da escola de Chicago, e o seu maior vulto, Milton Friedman, Nobel da Economia em 1976 e conselheiro dos Presidentes republicanos dos EUA, Richard Nixon e Ronald Reagan.  
 
Nos alvores da moeda única europeia, Gaspar estava como peixe na água. O «monetarismo» de Friedman inspirou as regras apertadas que estiveram na génese do euro. E todos os constrangimentos da política económica dos Estados que resultaram do Tratado de Maastricht contaram com a concordância do atual ministro das Finanças. Os «critérios de convergência» adotados assentam como uma luva nas convicções de Vítor Gaspar, para quem a estabilidade é a melhor política. «Estabilidade gera estabilidade», costuma repetir. Essa é a principal virtude daquilo a que os economistas chamam teoria da «grande moderação», segundo a qual a intervenção do Estado na economia se torna dispensável e indesejável.  
 
Esta é, talvez, a prova de fogo a que Vítor Gaspar vai ter de submeter as suas opiniões: governar as Finanças portuguesas, à beira do abismo. Além de uma meta orçamental de 5,9% até ao final de 2011, o novo ministro das Finanças vai ter de garantir o corte de pessoal na Função Pública: 1% na Administração Central, 2% nas autarquias.  
 
Para Manuel Pinho, Gaspar «tem a vantagem de conhecer todas as pessoas em Bruxelas, no BCE e no FMI e de ser respeitado lá. É um teórico que sempre se dedicou a estes assuntos da política monetária europeia. Há 20 anos que trabalha nisto, é muito sério e muito inteligente.  
 
Nogueira Leite subscreve: «Conhece muito bem os dossiês e os interlocutores da troika e tem características pessoais de grande resistência, é determinado, mas calmo. Domina qualquer outro candidato a ministro das Finanças.  
 
A CONSAGRAÇÃO: DOMINAR NA EUROPA  
 
Depois de Masstricht, Gaspar regressou ao Banco de Portugal, para dirigir o Departamento de Investigação e Estatística. Esteve lá até 1998, data em que assumiu o primeiro cargo internacional de relevo: diretor-geral do Centro de Estudos do Banco Central Europeu. Passou a viver entre Lisboa (ao fim de semana) e Frankfurt, na Alemanha. Isto durou seis anos (entre 1998 e 2004). A família - a mulher e três filhas - ficou sempre em Portugal. E isso, como veremos, fê-lo cansar-se de aeroportos e centros de decisão europeus.  
 
Em 2005, Durão Barroso convida-o para o BEPA (Bureau of European Policy Advisers), como conselheiro. Criado no tempo de Jacques Delors, este organismo europeu, equivalente a uma direção-geral e diretamente dependente do presidente da Comissão Europeia (CE), é uma espécie de think tank interno da CE. Tem uma equipa de poucas dezenas de especialistas em economia, política e assuntos sociais. Em janeiro de 2007, Vítor Gaspar subiu à chefia do BEPA, ocupando o lugar que foi de Maria da Graça CARVALHO, antiga ministra do Ensino Superior do Governo de Durão Barroso.  
 
Não sendo um cargo político eletivo, a direção do BEPA é, no entanto, uma função de grande influência política, uma vez que dali saem documentos com orientações da ação política. Vítor Gaspar participava, semanalmente, nas reuniões com todos os diretores-gerais, além de marcar presença nas reuniões da própria Comissão Europeia. «A este nível de conceção de políticas, a fronteira entre o que é técnico e o que é político não existe», refere uma fonte ligada à CE.  
 
O novo ministro das Finanças deixou o BEPA no ano passado, pondo fim a uma aventura europeia que começara em 1998, quando foi chefiar o departamento de estudos do Banco Central Europeu. O facto de terjádirigido vários gabinetes de estudo, «onde teve de tomar decisões complexas», convence João César das Neves da capacidade de decidir de Vítor Gaspar. «Diria que é uma pessoa muito competente tecnicamente e que, além disso, tem experiência administrativa e até política, enquanto conselheiro de confiança de vários ministros. E isto não só em Portugal mas a nível europeu. Por isso, parece-me ser uma pessoa muito adequada para a tarefa, neste momento tão difícil», observa César das Neves, que trabalhou com o agora ministro no Ministério das Finanças e no Banco de Portugal, quando Vítor Gaspar foi, também ali, diretor do departamento de estudos económicos.  
 
No último ano, Vítor Gaspar quis voltar a Portugal. O facto de a família se ter mantido em Lisboa enquanto ele esteve em Bruxelas contribuiu para a sua decisão, segundo os que lhe são mais próximos. E o regresso foi também um regresso à universidade na qual se licenciou, em 1982.  
 
O REGRESSO: PORTUGAL NA CORDA BAMBA  
 
Fátima Barros, diretora da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa, convidou-o imediatamente porque, segundo diz, interessava à faculdade uma pessoa com o perfil de Vítor Gaspar. «Uma pessoa que sempre fez investigação na área económica, mas que, ao mesmo tempo, tem uma visão muito pragmática da realidade, um conhecimento profundo das economias e dos mercados», resume Fátima Barros. Na opinião da diretora da Faculdade de Economia, «a reputação internacional» do novo ministro será um fator determinante. «A sua reputação internacional vai ser muito importante para a nossa credibilidade que, como se sabe, anda pelas ruas da amargura», acrescenta.  
 
Docente de Política Macroeconómica, Vítor Gaspar gosta de dar aulas e, na faculdade, fala-se, sobretudo, de uma personalidade muito «criteriosa». Na Católica, Vítor Gaspar também tem colaborado com o Instituto de Estudos Políticos (IEP), ao lecionar o seminário sobre Políticas Públicas na União Europeia. João Carlos Espada, diretor do IEP, sublinha o facto de Vítor Gaspar ter «uma grande capacidade de diálogo» e de «manter uma excelente relação com os alunos». «Que é, ao mesmo tempo uma relação de grande exigência. Não é o género do professor popular, facilitista», sintetiza João Carlos Espada.  
 
Neste contexto, o convite para ministro, e logo para número dois do Executivo, tê-lo-á apanhado de surpresa. Há uma semana, durante um jantar, juntou-se à especulação sobre quem seriam os ministeriáveis para a pasta das Finanças. Na altura ganhou Vítor Bento. Mas quem acabou por tomar posse foi Vítor Gaspar. Terá margem de manobra para usar da sinceridade que João Carlos Espada lhe reconhece? Miguel Beleza diz que tudo vai depender de Passos Coelho. «Há a questão de saber se terá apoio suficiente por parte do Governo, nomeadamente por parte do primeiro-ministro. Quero crer que sim, mas não sabemos. De vez em quando, as prioridades do primeiroministro não são necessariamente as mesmas do ministro das Finanças.»  
 
Uma coisa é certa. O ministro das Finanças não gosta de perder, «nem a feijões», e «joga para ganhar», afiança um amigo pessoal. Em Bruxelas, ganhou torneios de squash e jogou ténis.  
 
Competitivo e determinado, Vítor Gaspar também sabe ser descontraído. Tem sentido de humor, assegura Miguel Beleza. E nunca usa argumentos de autoridade, reforça o seu ex-aluno Pedro Pita Barros. Na universidade de Verão da JSD conquistou a plateia com explicações terra-a-terra. E por aparecer de mochila às costas.  
 
De uma fama não se livra: é alguém que agrada, sobremaneira, aos rígidos alemães. Já era conhecido em Bruxelas por essa proximidade (ideológica, programática) com Berlim. Um membro do gabinete social-democrata de Bruxelas recorda-o como «o menino bonito dos alemães». «Foi sempre muito próximo das posições alemãs. Ele sempre foi de uma grande ortodoxia. É uma visão mais importante do que nunca, neste momento, face ao acordo com a troika», acrescenta Manuel Pinho.  
 
É essa «visão ortodoxa» que o afasta, definitivamente, das posições do outro Louçã que se senta no Parlamento. Francisco, o primo mais velho, será um dos seus adversários mais duros. Mas só na argumentação. «Desejo-lhe as maiores felicidades. Opor-me-ei ao Memorando, qualquer que seja o ministro, porque essa é uma política que empurra o País para a bancarrota. Mas espero que ele cumpra a sua atividade nas melhores condições.» *Com Alexandra Cesaltina Pinto, Sara Belo Luís e Tiago Fernandes