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O homem do Dinheiro (FOCUS)

2011-06-29

É ambicioso, não gosta de perder, estudou na mesma escola que Pedro Santana Lopes e é o homem responsável pelas Finanças do País. Um técnico que terá de implementar medidas  
 
VÍTOR GASPAR  
 
Partilha com o "Mourinho da banca", António Horta Osório, o mesmo hobbie: o ténis. Com o seu pai, Vítor Rabaça Gaspar, partilha o gosto pela área económica e financeira. A mãe, Maria Laura Louçã, é jurista. A família paterna - tradição católica - é natural de Manteigas, mas o novo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, já nasceu em Lisboa. O pai, o mais velho de nove irmãos, saiu cedo do Interior para Lisboa e licenciou-se em Economia. Na vila do distrito da Guarda apenas vivem agora primos e primas mais afastados. Pelo menos dois tios do novo governante foram seminaristas e um deles chegou mesmo a ser padre, acabando por abandonar a Igreja e casar.  
 
Os locais não vêem por ali Vítor Gaspar há mais de 10 anos. Em Lisboa, a família instala-se na Avenida de Roma e Vítor Gaspar estuda na Escola Secundária Padre António Vieira (de 1972 a 1974), a mesmo onde também tinha andado Francisco Louçã, seu primo direito, e Pedro Santana Lopes, ambos quatro anos mais velhos. Aluno brilhante, pertenceu ao quadro de honra do liceu. Acabado o secundário, o jovem entra no curso de Economia da Católica, já depois dos tempos conturbados do PREC e no ano da primeira ajuda financeira por parte do FMI, era Mário Soares primeiro-ministro.  
 
Vítor Gaspar é casado com Sílvia Luz, quadro do Banco de Portugal, e tem três filhas: Catarina (nascida em 1986), Marta (1991) e Madalena (1998). Licenciou-se em 1982, tornouse mestre (1985, Universidade Nova de Lisboa) e depois doutor na mesma academia, sempre em Economia. Graça Franco, jornalista e antiga colega, tem memória de um "excelente aluno". E acrescenta: "É uma pessoa extraordinariamente determinada e inteligente e isso joga a favor dele." Da faculdade passa para a política e entra directamente para o gabinete do então ministro das Finanças, Miguel Cadilhe.  
 
Quando este sai do Executivo, Vítor Gaspar fica e começa a lidar de perto com o processo de integração monetária europeia, agora sob o comando de Miguel Beleza. À Focus, o ex-ministro considera-o uma pessoa "brilhante", com uma "inteligência notável" e recorda um episódio: "Quando foi preciso explicar por que é que Portugal deveria aderir ao euro, a explicação mais lapidar foi ele que me deu - 'Pense-se em Portugal com os juros da Holanda e a dívida portuguesa (na altura a nossa era baixa)'." Beleza foi várias vezes ao estrangeiro com Vítor Gaspar e não o considera um obcecado com os horários: "Era pontual, mais nada."  
 
TÉCNICO, MAS INSIDER  
 
Do Governo salta para o Banco de Portugal, onde dirige o departamento de Investigação e à Europa. Aqui, diz-se que o novo ministro é uma pessoa ambiciosa. De Setembro de 1998 a Dezembro de 2004 foi director-geral de Estudos Económicos no Banco Central Europeu. Miguel Beleza considera que a escolha de Gaspar para ocupar este cargo demonstra que "é reconhecido pela sua competência na Europa" e como ministro das Finanças, os conhecimentos que ali travou serão muito úteis. Sobre a ambição, Miguel Beleza é claro: "Tem de ser uma pessoa ambiciosa, senão não consegue fazer o que faz. Desde que seja doentio não há problema." Próxima etapa: Comissão Europeia. Durão Barroso convida-o para integrar o Bureau of European Policy Advisers (BEPA), em 2005, e dois anos depois chega à liderança do organismo. Não fica para um segundo mandato devido ao seu perfil mais técnico. Os conhecimentos da Comissão Europeia deixam-no mais à vontade para lidar com os responsáveis da troika, que conhece bem.  
 
Sempre independente, não deixou de contribuir com os partidos, principalmente com o PSD. Em Setembro de 2007, na transição da liderança de Marques Mendes para Luís Filipe Menezes, Vítor Gaspar foi um dos convidados da Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide. Falando para os jovens, começou por dizer que a qualidade que mais apreciava era a sinceridade e depois entrou por assuntos mais sérios: o processo de convergência real no âmbito da União Europeia. "Os decisores de política económica vivem num ambiente extraordinariamente difícil, porque, por definição de transformação estrutural, aquilo que eles verificam, aquilo a que eles assistem tose poderia inferir pela experiência histórica, pela evidência empírica disponível." E agora será Gaspar a ter de lidar com esse ambiente complexo. Graça Franco sublinha uma característica relevante: "É absolutamente blindado a qualquer tipo de lobbies, é muito independente. E isso é positivo."  
 
UM DEFENSOR DO EURO  
 
Numa altura em que a continuidade da Zona Euro tem sido tantas vezes posta em causa, Portugal tem um ministro das Finanças que, além de se ter sentado à mesa na conferência que negociou o Tratado de Maastricht, em 1992, nomeado pelo então ministro das Finanças, Braga de Macedo, tem sido um acérrimo defensor da moeda única. Uma pesquisa pelo seu nome no site do Banco de Portugal (BdP), onde trabalhou, revela o pensamento do agora governante sobre a política monetária europeia e as suas vantagens. Não há dúvidas de que Gaspar defende a moeda única sem pensar duas vezes. Duas intervenções de 2010. A primeira, de Outubro, mantém-se cada vez mais actual, pois questiona de que forma se pode voltar a ter confiança na Zona Euro.  
 
Aqui, o então consultor do Banco de Portugal, aponta três caminhos para a resolução da crise financeira: "Primeiro, uma forte supervisão das políticas fiscais nacionais e uma mais efectiva prevenção e correcção dos níveis excessivos dos défices e dívida públicos. Segundo, monitorizar os níveis de competitividade dos países, procurando corrigir os desequilíbrios macroeconómicos. Terceiro, uma estrutura de gestão da crise." Na segunda intervenção, o novo ministro das Finanças fala da importância da estabilidade dos preços: "A política monetária deve centrar-se na estabilidade dos preços a médio prazo. Os factores financeiros devem ser cuidadosamente considerados e tidos em conta, visto que influenciam a situação económica actual, as expectativas, assim como o mecanismo de transmissão da política monetária.  
 
A estabilidade financeira é um elemento importante para a condução da política monetária, mas não constitui um objectivo distinto." Em 2008, num artigo conjunto com Marco Buti, da Comissão Europeia, escrito já depois da falência da Lehman Brothers, o novo titular da pasta das Finanças faz um balanço dos primeiros 10 anos da moeda única. "O sucesso do euro vai para além da estabilidade dos preços." Depois de se debruçar sobre as vantagens da moeda única, Gaspar deixa um alerta: "Apesar de tudo, é hoje claro que a crise tornou vital a necessidade de reforçar a cooperação e vigilância aos europeus e globalmente. Um exemplo importante é a necessidade de reforçar a cooperação entre as autoridades de supervisão (...). A prevenção da crise - incluindo a estrutura global de regulação e supervisão - e a gestão da crise também estão no centro do debate."

Maria da Graça Carvalho, eurodeputada, faz parte do quadro de Conselheiros de Política Europeia (BEPA), que Vítor Gaspar chegou a chefiar. Poucos dias depois de ter sido anunciado o nome do agora ministro das Finanças, a ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior colocou na sua página do Facebook fotografias em que aparecia com o novo governante, enquanto trabalharam juntos. E deixou um voto de confiança no seu mural da rede social: "Da minha experiência de ter trabalhado com ele na Comissão Europeia em Bruxelas, posso dizer que tem uma grande capacidade de trabalho, inteligência, competência e rigor. Estou certa de que vai ter sucesso nesta difícil tarefa".

Graça Franco acompanhou profissionalmente o novo ministro e sublinha que Gaspar nunca analisou a realidade do ponto de vista técnico: "É uma pessoa que não está a vaguear dentro de modelos. Estuda como intervir e agir sobre a realidade através de políticas. É diferente quando se tem de implementar, mas é um passo que será testado."  
 
Antes de aceitar integrar o Governo liderado por Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar era consultor do Banco de Portugal, professor convidado da Universidade Nova e ainda de uma cadeira no ISEG. Agora, tem nas suas mãos várias responsabilidades e desafios. Os conhecimentos que travou na Europa serão, sem dúvida, uma ajuda, mas serão suficientes para convencer também os portugueses?  

Catarina Sousa