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O adeus de um empreendedor (Diário Económico)

2011-07-14

Na vida pessoal, na política, enquanto gestor: Diogo Vasconcelos foi um empreendedor toda a vida.  
 
Diogo Vasconcelos não era elitista, mas fazia parte de uma restrita "elite" que sabe inovar, que não tem medo da mudança, e que acredita que se pode ser ainda melhor que os melhores. As capacidades de liderança, de criatividade e de visão de Diogo Vasconcelos foram os traços mais fortes da sua personalidade elogiados vezes sem conta por quem com ele privou, a nível pessoal ou profissional. Uma pessoa de causas, dono de uma energia sem limites, que não deixava ninguém indiferente. Portugal perdeu uma referência nacional e internacional, um dos responsáveis que ajudou a colocar o País na vanguarda da tecnologia e inovação.  
 
"O Diogo era uma força da natureza. Inspirador como amigo e como grande profissional do sector das TIC, fez muito pela inovação e pelo empreendedorismo no nosso País. Prestigiou também o nome de Portugal no mundo e vamos sentir muito a falta da sua irreverência e energia." É assim que Zeinal Bava, presidente executivo da Portugal Telecom, recorda Diogo Vasconcelos.  
 
Aluno de boas notas  
 
Diogo Vasconcelos vem de uma família de três irmãos. Ele era o irmão "do meio". A mãe, professora do ensino secundário e o pai, engenheiro electrotécnico, na empresa Efacec. Frequentou o jardim de infância e as escolas em Ameal, arredores de Coimbra, onde a família residia. Mas quando chega a altura de frequentar o ensino secundário inscreve-se na Escola António Nobre em Paranhos, Porto, onde a mãe leccionava. Foi, aliás, aqui que Diogo teve a sua primeira ligação ao associativismo, que o levou a deixar de parte, com alguma relutância, o projecto jornalístico onde se tinha empenhado: o jornal nacional Vida de Estudante.  
 
Aluno de boas notas em quase todas as áreas, na altura de escolher uma especialização opta pela área de Humanísticas, que o levará para o curso de Direito, onde acaba por se formar. Na universidade dá continuidade à vida associativa. Ainda nas lides académicas, cria a Federação Académica do Porto (FAP), onde é reeleito presidente por duas vezes.  
 
"Sempre que podia regressava ao Porto para ver a família e amigos. Era profundamente bairrista (no bom sentido da palavra) e um apaixonado pela Invicta", diz Jaime Fidalgo, actual director executivo da 'Exame Angola' e um dos jornalistas que com ele lançaram a 'Ideias&Negócios'. "Estávamos em plena ascensão das 'doteom' e do capital de risco. E o Diogo disseme: 'Tu fazes uma revista, eu lidero um movimento cultural. Não queres vir trabalhar comigo?'. É com esta frase que ele convence Jaime Fidalgo a largar um emprego estável como director da 'Executive Digest'. Uma mudança que relembra "foi um encontro que mudou a minha vida. Para ele, nunca havia impossíveis. O Diogo fervilhava de ideias, trabalhava de forma aluciante, irradiava optimismo e confiança e tinha uma paixão e um entusiasmo que inspiravam quem o rodeava", relembra Jaime Fidalgo.  
 
O homem que criou a UMIC  
 
Diogo Vasconcelos teve a sua passagem também pela política. Eleito pelas listas de Durão Barroso torna-se deputado da Assembleia da República, em 2002. O seu assento no Parlamento tem um objectivo concreto: desenvolver um projecto na área da sociedade da informação.  
 
A Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC) nasceu, assim, depois de ter sido pensada e desenhada por ele, tendo como referência modelos idênticos na Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido. "Sou testemunha do reconhecimento de todos que com ele colaboraram e foram inspirados pela sua visão e pensamento inovador e que fizeram do Diogo uma das personalidades mais brilhantes da sua geração", refere Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia.  
 
Foi responsável pelo site da presidência que, aliás, bateu sucessivos recordes de visitas. "Um homem genial, um pioneiro, um visionário, com uma capacidade criativa notável. Estava na linha avançada da sociedade do conhecimento e das tecnologias de informação", disse o Presidente da República, Cavaco Silva.  
 
O último projecto do Diogo e a sua última grande paixão, segundo a eurodeputada Maria da Graça Carvalho, foi "o dialogue café", que tinha por objectivo pôr em contacto através de vídeoconferência jovens dos países em desenvolvimento. "Na última vez que nos visitou no Parlamento Europeu, em Junho, falou-nos dos projectos que tinha para aplicação de tecnologia para ligar a juventude libanesa ao mundo. Adorava Beirute e o dinamismo da sua juventude", salienta a eurodeputada.  
 
Actualmente, Diogo Vasconcelos trabalhava em Londres na multinacional Cisco. Sentia-se mais perto do centro da Europa e do resto do mundo, evitando, assim, viagens e escalas aéreas aborrecidas e demoradas. Perder tempo era um desperdício.  
 
Tinha 43 anos, e faleceu, em Londres, no passado dia 7, vítima de uma septicemia que acabou por originar complicações cardíacas. No início da semana passada, numa conferência em que participava em Bilbao, Espanha, Diogo sentiu-se indisposto. De regresso a Londres, onde morava actualmente, acabou por ser hospitalizado em resultado de uma septicemia, sofrendo, mais tarde, uma paragem cardíaca. A acompanhá-lo na unidade hospitalar londrina estavam a mulher e o irmão. E a todos os que conviviam com ele, certamente parece ainda uma coisa estranha... ter deixado de contar com a presença física do Diogo. Morrer aos 43 anos, numa idade tão jovem e de forma tão inesperada, faz reflectir qualquer um sobre a fragilidade da própria existência.  
 
"Ainda só passaram uns dias desde que partiu e o vazio da sua ausência faz-se notar cada vez mais (...) Nunca fui grande adepto do 'não há ninguém insubstituível'. Há pessoas que o são, e o Diogo era uma delas", diz Carlos Brazão, director-geral da Cisco Portugal. Quem o conhecia bem diz que Diogo dormia pouco, lia muito, estava sempre actualizado sobre o que estava a acontecer no mundo (sobretudo nas áreas da inovação e do empreendedorismo) e sempre conectado com as novas tecnologias.