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No limiar da terceira revolução industrial

2011-02-18 - Diário do Alentejo

No seu discurso sobre o Estado da União, Barak Obama, recordando as palavras de R. Kennedy - "o futuro não é uma dádiva, é algo que se conquista" -, exortou a nação americana a reafirmar a sua liderança no mundo através duma aposta forte e corajosa na inovação centrada, sobretudo, no desenvolvimento das tecnologias de produção de energia limpa e renovável. Duas boas razões permitem-nos perceber que as palavras de Obama não foram mera retórica. Por um lado está em jogo a liderança num sector industrial importante e, por outro, há que pensar no papel que as energias limpas irão desempenhar no desenvolvimento industrial global.

Os Estados Unidos e, sobretudo, a Europa estão relativamente bem posicionados no sector das energias limpas. Mas estudos recentes (e.g. E. Martinot, L. Junfeng, "Powering China's development: the role of renewable energy", in www.renewableenergyworld.com, 2008) indicam que a China tem vindo a impor-se como líder global na produção de energia eólica e solar fotovoltaica. Se a Europa nada fizer nos próximos tempos, perderá a sua posição de vanguarda e, depois, terá muita dificuldade em recuperá-la na concorrência com as economias emergentes, muito dinâmicas e competitivas.

Por outro lado, o mundo encontra-se no limiar da terceira revolução industrial, que se caracteriza pela convergência entre as redes de comunicação globais e as novas formas de produzir, distribuir e armazenar energia (cf. J. Rifkin, M.G. Carvalho, "Leading the way to the third industrial revolution", European Energy Review, Dez. 2008, pp. 4-18). E espera-se que esta convergência venha a ter, no século XXI, um impacto económico tão poderoso como tiveram a convergência entre as tecnologias de impressão e a máquina a vapor, baseada no carvão, no século XIX, e a convergência entre as comunicações assentes na electricidade e o motor de explosão, movido a gasolina, no século XX.

Não admira pois que Obama compare o repto, que decidiu enunciar no rescaldo da grave crise financeira que assolou a economia americana, ao desafio lançado pelo Presidente Kennedy à geração americana do pós-guerra para que aquela se mobilizasse a colocar um homem na Lua. Obama sabe que "a nação que vier a liderar a economia da energia limpa, será a nação que virá a liderar a economia global". E a ideia de Obama foi desafiar os Estado Unidos a serem essa nação.

Se tudo isto representa um desafio relativamente recente para os Estados Unidos, já na Europa, o papel das energias limpas e renováveis, enquadrado no combate às alterações climáticas e nas políticas de crescimento económico sustentável, faz parte de uma visão de futuro acalentada há anos por várias organizações e instituições europeias. Mas a esta visão falta ainda a veemência, a ousadia e a ambição de uma liderança forte.

Prova-o o último Conselho Europeu de 4 de Fevereiro. A expectativa de que o Conselho abordasse de forma aprofundada as questões da inovação e da energia, como factores decisivos para fazer face às dificuldades internas de criação de emprego e, externas, de competitividade da Europa no mundo, não se concretizou. 

A próxima oportunidade não pode ser desperdiçada, pois cada dia que passa torna as acções necessárias para alcançar uma posição de liderança na economia global mais ousadas e dispendiosas. Penso que os europeus exigem e merecem que na próxima Cimeira do Eurogrupo, de 11 de Março, e no Conselho Europeu de 24-25 de Março, seja debatido um novo modelo económico de crescimento que coloque a Europa na liderança da terceira revolução industrial e a torne um farol de esperança para todo o mundo no limiar do século 21.