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A saga dos activistas residentes

2010-12-31 - Diário do Alentejo

O psicólogo e jornalista cubano Guillermo Fariña, hoje, como o físico russo Andrei Sakharov, nos anos 60 e 70, pertencem aquela plêiade de intelectuais que, apesar de terem crescido e sido educados nas escolas oficiais dos estados comunistas e de terem ocupado, durante um período da sua vida, posições importantes nas instituições destas sociedades fechadas, não permitiram que as suas mentes e consciências ficassem reféns da realidade que os envolvia e ousaram confrontar o poder totalitário instituído com as ideias e as motivações em que o mesmo procurava alicerçar a sua legitimidade. O caminho que percorreram, alimentado pela reflexão sobre o equilíbrio entre os valores da humanidade e o respeito pelos direitos do homem, por um lado, e os meios e instrumentos que um poder instituído pode utilizar com legitimidade na condução da sociedade, por outro, levou-os à dissidência e ao activismo social e político dentro da sociedade que os formou e educou.

            Optaram por lutar sem quartel, sem refúgio, sem santuário, dentro da sociedade que os criou, tentando modificá-la a partir de dentro. E assim sacrificaram a sua saúde, o seu conforto, a sua liberdade de movimentos, em suma, a sua vida física, em sucessivas contendas com poderes colossais.

            Este ano Guillermo Fariña foi galardoado como o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento. O galardão é atribuído no final de cada ano, pelo Parlamento Europeu, a individualidades ou organizações que tenham dedicado a sua vida à defesa dos direitos humanos e à liberdade de pensamento.

            A condição de dissidente cubano residente impediu Guillermo Fariña de estar presente na cerimónia que decorreu em Estrasburgo. Assim foi representado por uma cadeira vazia, na qual repousava a bandeira cubana.

            Para quem vive numa sociedade livre é por vezes difícil conceber o grau de abnegação e sacrifício necessário para alcançar direitos que parecem naturais e óbvios, como a liberdade de expressão, de imprensa ou de acesso à Internet. Fariñas fez 23 greves de fome ao longo dos anos, tendo a última terminado, ao fim de 135 dias, depois de o governo de Havana ter anunciado a libertação de 52 prisioneiros políticos. Em 2006 entrou em greve de fome para protestar contra a censura na Internet e apelar à liberdade de acesso à Internet para todos. Nesse mesmo ano foi galardoado com o Prémio Ciber-Liberdade Repórteres sem Fronteiras.

Numa gravação em vídeo enviada ao Parlamento Europeu, Guillermo Fariñas pediu aos eurodeputados que, ao analisarem a política da UE em relação a Cuba, "não se deixem enganar pelos cantos de sereia de um regime cruel de comunismo selvagem". Segundo Fariñas, uma mudança de atitude face ao seu país só se justifica quando o regime cubano libertar todos os presos políticos e de consciência; renunciar às ameaças e à violência contra os opositores pacíficos dentro do país; anunciar que serão examinadas e revogadas todas as leis cubanas que são incompatíveis com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e aceitar publicamente que todos os cubanos da diáspora têm o direito de participar na vida cultural, económica, política e social de Cuba.

O galardão conferido pelo Parlamento Europeu a Guillermo Fariñas não permitirá que a sua voz seja silenciada por um regime opressor. Pelo contrário, amplificará a sua voz e constituirá um factor de pressão para que o regime cubano abandone a política de constante violação dos direitos humanos.

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